domingo, 27 de maio de 2012

Desfile histórico nas ruas do Funchal

Hoje o Funchal fez uma viagem por séculos da sua História, desde os inícios da colonização e povoamento, até às revoltas mais recentes do século passado, para chegar às conquistas da nossa autonomia. Esta iniciativa enquadrou-se nas comemorações finais da Festa da Cultura do Funchal.
Nada contra; pelo contrário, a nossa História deve ser lembrada e relembrada, principalmente ensinada às gerações mais novas, que não têm noção nenhuma sobre as suas próprias raízes.
Positivo: a iniciativa em si, a escolha dos momentos importantes da nossa História, o guarda-roupa, o caráter informativo dos flyers distribuídos por jovens e crianças.
A repensar: muitos figurantes com ar de enfado, alguns com pastilha elástica na boca, outros com altos relógios, ainda alguns mexer nos telemóveis, pulseiras, calçado desadequado e óculos de sol na cabeça. Sei bem que o objetivo não era uma representação fiel da época, mas os pormenores também são importantes. A animação musical não era constante e havia momentos vazios, a informação dos flyers apenas estavam em português quando muitos turistas estavam a ver e poderiam aprender também qualquer coisa se a informação estivesse também, pelo menos, numa língua estrangeira.
Seja como for, ficam algumas fotos para relembrar.

























As nossas ribeiras há uns tempos atrás

Hoje vi esta fotografia na net e fiquei com saudades de quando as nossas ribeiras eram assim...


sábado, 26 de maio de 2012

Estranhar Pessoa

Ontem, no Colóquio "Estranhar Pessoa com as materialidades da literatura", reli este poema extraordinário de Caeiro, o mestre de todos os heterónimos. Fica aqui o poema VIII de O Guardador de Rebanhos.


Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso de mais para fingir
De segunda pessoa da trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
…………………………………………………
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
………………………………………
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
………………………………………
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Porque razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?
Alberto Caeiro
In O Guardador de Rebanhos

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sobre as escolas

Foi aprovado, no último conselho de ministros, um novo diploma sobre a autonomia das escolas. Finalmente!
Confesso que ainda não li o documento, mas importa refletir sobre o que a comunicação social referenciou (ainda que com algumas cautelas, pois sabemos o quanto os media, ávidos de notícias rápidas e sensacionalistas, por vezes com intuitos mais obscuros que a simples informação do público, ampliam certos dados para que apareçam com outras cores aos olhos de quem lê).
Em primeiro lugar, estando em maio, aproximando-se o fim do ano letivo (com tudo o que isso acarreta a nível de avaliações dos alunos e demais tarefas burocráticas que assombram o dia a dia dos professores), estando perto da época de exames (que este ano incluem a novidade dos exames de 6º ano de escolaridade), os professores não terão tempo de fazer uma reflexão séria sobre o documento. 
Como consequência, as escolas não terão tempo de "digerir" as novidades nem de se adaptar com a serenidade que tais mudanças acarretam no seu funcionamento.
Se aprovamos o reforço da autoridade da figura do diretor e do conselho pedagógico, já nos causa mais preocupação a firmação do ministro da educação e ciência quando diz que " "O que queremos é que, progressivamente, o corpo de directores do país tenha maior formação específica em aspectos que têm a ver com gestão e não directamente com a docência", pois abre caminho a que este cargo possa ser ocupado por alguém que não seja professor. Se se compreende a preocupação com a trágica situação financeira do país - que dados do primeiro trimestre deste ano, há poucos dias divulgados, aprofundam -, já não podemos aceitar que usemos essa desculpa para alterar a dinâmica e a lógica pedagógica das escolas, onde se joga a educação dos nossos jovens, nem que seja em áreas como a educação que se jogue a saúde orçamental do país.
Importa ler o documento com pormenor para poder opinar com fundamento. Penso que as generalizações e o excesso do ruído pode enfraquecer a posição dos professores em questões fundamentais da nossa profissão.
Aguardemos ainda como este diploma será adaptado á realidade regional da Madeira (se é que ainda dispomos de qualquer autonomia nesse sentido).

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Falsa tempestade de areia


Um repórter da Roménia anunciava uma tempestade de areia e dizia como era impossível se estar com a força do vento e com a areia por todo o lado. Afinal, um engano no ângulo da filmagem filma um homem ao lado a atirar areia para simular a suposta tempestade.
Este fait-divers tem tanto de patético como de problemático: parece que nem sempre devemos acreditar no que vemos na televisão, para mais num programa noticioso.

Fernando Pessoa ainda está na moda


Os grandes autores nunca saem de moda. Não sei bem se este é o termo certo, pois há muitos escritores que foram moda quase febril e acabaram no esquecimento, tal como muitos autores que hoje são vendidos como tremoços e provavelmente amanhã quase ninguém se lembrará deles. Quem ouviu falar de Ernesto Biester, um escritor dramático do nosso Romantismo cujas obras tiveram grande receção e cujas representações teatrais enchiam os teatros de Lisboa, muitas vezes com grande polémica entre atores e atrizes que faziam as delícias do mundo social de então? 
Os grandes autores continuam a ser lidos com entusiasmo e a ser motivo de debate e de revisitação, com leituras e releituras mais ou menos inovadoras.
Fernando Pessoa é um grande autor e suscita admiração, controvérsia, debate, emoção em todo o lado. Num recente leilão, a máquina de escrever, da marca Royal, em que Fernando Pessoa terá escrito foi à praça por 3000 euros e acabou arrematada por 22 mil euros, como se pode ler no "Público". O mesmo aconteceu com a secretária, em mogno, com tampo de esteira, quatro gavetas de cada um dos lados, o interior forrado a pele verde e com diversos compartimentos. A peça foi à praça por 10.000 euros e foi vendida por 58 mil.


Curiosa coincidência quando, dia 25 de maio, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, se discutirá novamente Pessoa na perspetiva do curso de mestrado e doutoramento de Materialidades da Literatura: "Estranhar Pessoa com as materialidades da literatura". Mais informações sobre este evento em http://matlit.wordpress.com/2012/05/15/primeiro-coloquio-do-programa-de-doutoramento-em-materialidades-da-literatura/, ou ainda em http://matlit.wordpress.com/2012/05/19/estranhar-pessoa-com-as-materialidades-da-comunicacao-participantes-e-comunicacoes/.


domingo, 20 de maio de 2012

É um(a) condutor(a) agressivo(a)?

Este é um teste sugerido pela revista "Visão" para verificar se somos condutores agressivos.
Não sei avaliar o rigor científico do mesmo, mas será interessante uma autoavaliação sobre a forma como nos comportamos na estrada.
É um bom exercício para quem conduz bem, para quem conduz mal, para quem pensa que conduz bem e afinal é um asno, para quem conduz mal e e sabe que conduz mal, para quem é maldoso de propósito, enfim... Divirtam-se!


Os jovens e a política






A política é uma atividade nobre, pelo menos deveria ser. A defesa da res publica e a vontade de querer contribuir para melhorar a nossa comunidade e a vida de quem nos rodeia deveria mobilizar-nos a todos. A política deve defender o cidadão, estar em prol da melhoria das condições de vida de todos (sem exceção).
Ora gosto de ver quando os jovens abarcam esta causa, independentemente das profissões que têm e das opções dos partidos políticos a que aderem. Os jovens deveriam ser os maiores interessados na política porque serão eles que amanhã terão nas mãos o destino da civilização.
A Luísa é uma jovem corajosa: tem ideias, opiniões e vai ao terreno, não se fica pela revolta sentada de café, como muitos fazem, mostrando assim que fazer política é mais do que urinar pelos cantos da cidade (nomeadamente carros da polícia) para marcar território. A Luísa joga no frente a frente, com coragem, no plano das ideias e das ações. E quem está ao lado dela também. 
Independentemente de achar que estão no partido errado, elogio a coragem e a determinação. A política agradece, principalmente numa terra tão avessa à verdadeira discussão política e à luta verdadeiramente democrática.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Festa da Cultura - Funchal 2012



Começou a Festa da Cultura. E começou da melhor maneira, elos vistos. 
De 17 a 27 de maio, o Funchal comemora a cultura em várias das suas vertentes, num conjunto de atividades que complementam a Feira do Livro.
Os museus irão contribuir com algumas atividades, assim como desfiles temáticos onde a história sairá à rua, numa atitude que tem tanto de didático quanto de lúdico.Também se falará de literatura e de livros, muitos livros. Também poderemos assistir a sessões de atualização de conhecimentos gratuitas sobre particularidades da nossa cidade, algumas em risco de desaparecer.
Como se vê, há muito a fazer, muito para ver, muito para aprender, o tempo está a ajudar; não há desculpas para ficar em casa.
Gosto de ver o Funchal assim: animado e cheio. Só espero que estas iniciativas não sejam avulsas, sem uma estratégia enquadradora e refletida, pois um povo sem cultura tende a desaparecer devagarinho e dele não rezará a história.
Para mais informações detalhadas sobre as atividades programadas, veja em http://www1.cm-funchal.pt/festaculturafunchal/.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Desemprego em Portugal

Esta taxa de desemprego (que corresponde a mais de 800 000 desempregados em Portugal) deve fazer-nos a todos refletir sobre o rumo que estamos a tomar enquanto país. Trata-se de uma situação explosiva para a qual ainda não se vê nem luz ao fundo do túnel, nem esperança para quem de repente fica sem nada.
Os próprios governantes, em relatórios e declarações recentes, afirmam estarem surpreendidos com este aumento, como se não tivesse havido aviso e como se não fosse nada com eles. Afinal de contas, eles são apenas governantes e tomaram as medidas socialmente mais desastrosas que se possa imaginar num país em recessão. Não sei de que estavam à espera: de fechar uma torneira e pensar que a água ia continuar a jorrar.
Soluções urgentes, e já!

Jaime Freitas e o próximo concurso de professores da RAM



Jaime Freitas admite redução de professores devido a reforma curricular | DNOTICIAS.PT

Nesta notícia do "Diário de Notícias" da Madeira seguem recentes declarações do Secretário Regional da Educação e Recursos Humanos, onde alude a mudanças no próximo concurso de professores para a RAM, que o mesmo diz acontecer em finais de maio ou inícios de junho.
Verdade seja dita que algumas das alterações, que farão com que muitos professores, principalmente os mais novos e a contrato, fiquem fora do sistema, estão ligadas com as imposições das mais recentes reformas curriculares. Também entendemos que não há lugar para toda a gente. O que já não compreendemos é que seja novamente a educação e o ensino (que deveria ser uma área em permanente investimento, pois ensino e educação, assim como conhecimento, nunca são demais) que irão pagar alguns desgovernos e algumas opções irrefletidas (para não dizer irracionais) do passado.
Aguarda-se desenvolvimentos.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Eduardo Lourenço e a profissão de pensar


Eduardo Lourenço, neste momento com 88 anos, dispensa grandes apresentações. É simplesmente um dos maiores pensadores, filósofos e ensaístas do nosso país e figura incontornável da nossa cultura mais recente. Por isso não me surpreende que lhe seja entregue o Prémio Pessoa 2011. 
Este prémio é concedido anualmente a uma pessoa de nacionalidade  portuguesa que, durante esse período - e na sequência de uma atividade anterior  -, tenha sido protagonista "de uma intervenção particularmente relevante  e inovadora" na vida artística, literária ou científica do país. A justiça desta iniciativa é ainda mais percetível se fizermos um balanço da vida e das publicações de Eduardo Lourenço, principalmente aquela relacionada com Fernando Pessoa.
Quem quiser informações mais completas e específicas sobre a vida, obra, pensamentos, depoimentos e intervenções de Eduardo Lourenço, encontrará facilmente, na internet, informações precisas, como por exemplo em http://www.eduardolourenco.com/.
Apenas uma curiosidade: neste momento em que vos escrevo, as televisões já transmitiram em direto a chegada do primeiro-Ministro e do Presidente da República. De facto é importante saber a cor dos fatos que vestem, em que cadeiras ficarão sentados, ou ainda quem cumprimentaram e ao pé de quem irão estar durante a cerimónia. Mas interessava-me mais o galardoado. O dia deveria ser dele.

domingo, 13 de maio de 2012

O Curioso Caso de Benjamin Button


Revi "O curioso caso de Benjamin Button" (realizador, David Fincher, 2008) e relembrei-me porque tinha gostado tanto do filme da primeira vez.
O filme é baseado numa historia de Scott Fitzgerald: um homem que nasce com oitenta anos e começa a regredir e a ficar mais novo em vez de envelhecer.
Para além de uma representação muito boa de Brad Pitt (a mostrar que é mais do que uma cara bonita e que também sabe representar), o elenco conta também com a brilhante Cate Blanchet.
Os sentimentos do ser humano e as vicissitudes da condição humana estão todas presentes no filme, mas numa vida que se vive ao contrário. Como o próprio Bemjamin Button diz logo na primeira frase do filme, "Eu nasci sob circunstâncias pouco usuais": o filme não trai este pressuposto e as expetativas do espetador não saem defraudadas. Sem dúvida a rever mais vezes para que cada um de nós possa tirar ensinamentos e fazer as suas próprias reflexões: vida, morte, amor, paixão, experiências, guerras, vidas que se cruzam mas que andam em sentidos (e tempos) opostos.

sábado, 12 de maio de 2012

A música de Bernardo Sassetti


Queria escrever sobre a morte de Bernardo Sassetti mas não o conheci a não ser através da sua música (e ainda assim também não conhecia lá muito). Por isso não posso escrever sobre Bernardo Sasseti nem do facto de uma queda de uma falésia ter causado o seu desaparecimento sem que ninguém o previsse.
Poderia escrever sobre música (que melhor homenagem a um músico!), mas também não percebo lá muito de música. Como falar de alguém que não conhecemos pessoalmente, da música desse alguém que também não conhecemos aprofundadamente e sem conhecimentos especializados sobre música? Melhor então ficar quieto e escrever sobre o que esta música me sussurra ao ouvido.
Há músicas que nos lembram momentos do passado, outras fazem-nos recordar sentimentos, ainda as há que nos fazem chorar e ainda podíamos fazer referências àquelas que não nos dizem absolutamente nada. Mas não podemos dizer que não gostamos de música, seja de que tipo for.
Esta (do filme "Alice" de Marco Martins) lembra-nos precisamente a noite. Qualquer noite: calma, brisa quente de verão, as ruas iluminadas pelos candeeiros e um cão rafeiro em busca de um sítio silencioso para dormir. Lembra-nos os ruídos da noite, um carro que passa ao longe, o barulho dos carros do lixo e dos homens e das mulheres que trabalham depois do sol posto. Algumas vozes ao longe sem que nos apercebamos exatamente de onde vêm. E um casal de namorados num banco no cais da cidade. Traz-nos à ideia rostos de pessoas que se cruzam por nós e que não fixamos, mundos em deriva, sem sol, sem luz, apenas o silêncio da noite no olhar. Sussurra-nos desejos e vontades que não confessamos à luz dos dias. E isso faz-nos mais humanos do que alguma vez fomos. Esse o poder da música, essa a magia que Sassetti nos traz.